A ficção da mulher moderna encontra em Sônia Coutinho uma das suas vozes contemporâneas mais agudas. As suas personagens vivem conflitos e atualizam anseios, entre aceitar a condição de domesticidade ou romper em busca de afirmação pessoal. Sônia aborda várias nuanças da problemática transição dos modelos conservadores para uma nova situação, após o processo de liberação feminina que se verifica no mundo ocidental, sobretudo a partir dos anos 60. Seus enredos assumem uma perspectiva crítica, com questionamentos e propostas que se contrapõem ao discurso tradicional sobre a mulher e seus papéis sociais, sem perder de vista os impasses e os limites das situações.
A autora problematiza os dilemas da mulher diante de suas possíveis escolhas. De um lado, a manutenção do status familiar conservador, subordinando-se à sua lógica; de outro, a liberação que significa liberdade de pensar, escolher e agir, mas que pode implicar outras perdas. Esta dialética permeia sua narrativa, que mostra as personagens em situações de tensão entre as duas ordens de valores.
O romance Atire em Sofia[1], de 1989, envolve um grupo de jovens amigos, os acontecimentos e o sentido de suas vidas que são focalizados de maneira avaliatória. O romance agencia as várias vozes das personagens, que comparecem com suas opiniões e interpretações sobre si e os outros. As experiências vividas afloram à consciência das personagens e, através da colagem de suas memórias, o enredo toma forma e se desenvolve como um diálogo entre o presente e o passado.
O nome da protagonista, Sofia, é muito expressivo devido, sobretudo, ao que simboliza: a Sabedoria que, segundo ressalta Madonna Kolbenschlag, nomearia, a partir dos ensinamentos de Jacob Boehme (1575-1624), um princípio feminino de “um ser incondicionado, coexistente com a deidade masculina criadora”, de acordo com a tradição gnóstica[2] Em Atire em Sofia, pode-se admitir a hipótese de que a autora pretendeu criar uma personagem feminina que neutralizasse as diferenças entre os sexos, assumindo atitudes e privilégios normalmente reservados ao sujeito masculino.
O nome da protagonista remete também à referência ao romance de William Styron, A Escolha de Sofia,[3] em que a personagem, uma polonesa capturada pelos alemães, durante a II Guerra Mundial, é separada dos filhos no momento da triagem e obrigada a fazer uma escolha dramática. Com qual dos filhos ela escolheria ficar? Pressionada e sob ameaça de perder ambos os filhos, entre Jan e Eva, ela escolheu o menino Jan, e se consumiu em remorsos até o fim de sua existência pelo peso de sua escolha capital. No romance de Styron, o conflito interior da personagem resulta numa história pungente e emocionante, que deixa o leitor perplexo diante de situações humanas dramáticas causadas por uma guerra.
A personagem de Sônia Coutinho também faz uma escolha capital. Entre manter um casamento insosso, convencional, e criar as duas filhas, ela preferiu romper, abandonar as convenções sociais e tentar uma vida própria no Rio de Janeiro. No entanto, ela sofre as várias conseqüências decorrentes de sua decisão, entre as quais o remorso por haver deixado as filhas para trás. Ao reencontrá-las, anos depois, defronta-se com o mutismo e a indiferença, o que lhe acentua o forte sentimento de culpa e a necessidade de se justificar.
Sofia experimenta o dilema muito discutido nos anos da emancipação feminina: procurar realização na vida doméstica e se acomodar dentro das convenções ou partir para uma nova vida, sozinha, ou com a possibilidade de manter relacionamentos não convencionais, preservando sua liberdade. Na segunda situação, como foi o caso da personagem, a mulher que se queria liberada tinha de enfrentar os preconceitos e as sanções impostas pela sociedade como, por exemplo, a desaprovação da família e a ameaça de perda da guarda dos filhos. Isso se explica pelo fato de haver um conceito estipulado sobre o papel da mulher casada que devia amoldar-se às convenções.
Sofia não aceita o rótulo e estabelece a ruptura com o modelo tradicional. Opta pela situação similar àquela vivida pela protagonista do conto Uma certa felicidade[4], da própria Sônia Coutinho, em que a protagonista rompe o compromisso de noivado e segue em busca de sua realização no Rio de Janeiro, fazendo uma opção incompreensível aos olhos daqueles que lhe prefiguram, de forma conservadora, um “destino de mulher”.
Ambas as personagens representam a mulher no limite da superação dos condicionamentos e valores do passado, pois fazem uma escolha polêmica, envolvidas pela atmosfera de ruptura, o que as torna sujeitas a arrependimentos ou a futuras culpas. O sentimento de culpa[5] de Sofia a acompanha até o fim. A protagonista conserva sempre a dúvida atroz sobre haver tomado ou não a melhor decisão. As dúvidas tornam-se parte da insegurança com que avalia sua trajetória de vida. Ao mesmo tempo em que se culpa, ela se pergunta até que ponto desejaria realmente conviver com as filhas.
Sem encontrar resposta, Sofia segue o seu caminho labiríntico, procurando justificar-se a cada passo e avaliando o peso de sua decisão. A visão do papel da esposa submissa e subalterna ao marido, cujo exemplo expressivo é sua própria mãe, é um elemento sempre presente em sua reflexão. A protagonista tem consciência de que se encontra numa posição crítica, em que se destaca pelo fato de haver rompido com a tradição da família e enfrentado as conseqüências do ato que a deixa marcada pelo resto da vida. Ela resolve ficar sozinha, após alguns relacionamentos que poderiam ser duradouros. Mas considera a solidão um tesouro duvidoso nos momentos de fragilidade.
Sofia experimenta a tensão entre a possível decisão e as condições repressoras em que vive. Assume uma decisão, optando livremente pela ruptura do meio familiar No entanto, a personagem não é totalmente livre, pois há uma marca de fatalidade em seu necessário retorno à cidade de origem para se justificar e de alguma forma atenuar uma culpa constante. Segundo Marilena Chauí:
A liberdade é a capacidade para darmos um sentido novo ao que parecia fatalidade, transformando a situação de fato numa realidade nova, criada por nossa ação. Essa força transformadora, que torna real o que era somente possível e que se achava apenas latente como possibilidade, é o que faz surgir uma obra de arte, uma obra de pensamento, uma ação heróica, um movimento anti-racista, uma luta contra a discriminação sexual ou de classe social, uma resistência à tirania e a vitória contra ela.[6]
Essa concepção de liberdade pressupõe uma ruptura sem volta, sem que se olhe para trás. Para romper é necessário ter muita consciência acerca dos objetivos a serem alcançados. Apesar de haver tentado se desvencilhar de uma situação opressiva, a personagem não alcança totalmente a liberdade, pois continua presa ao passado através do sentimento de culpa. Por isso sente a necessidade de voltar às origens, mesmo recusando os papéis femininos predeterminados. Em sua reflexão, a personagem mostra uma visão crítica que se opõe ao casamento tradicional, já que o considera uma forma de anulação da mulher. As relações familiares antigas são vistas como “longos exercícios de ódio”, com a manutenção das aparências, o que ela repudia com veemência.
Os casamentos aqui, na geração da minha mãe, eram longos exercícios de ódio. A mulher deveria permanecer sempre criança, para agradar e servir sempre ao homem. [...] Gerações inteiras de mulheres de que não temos nenhuma notícia, de cuja vida não ficou registro nenhum. [...] Mulheres que até se desabituaram de dizer “eu sou”, “eu quero”. (AS, p. 50).
A reflexão de Sofia contraria e desmitifica o conceito do eterno feminino[7], que postula a realização da mulher através da idéia de amor entendido como sinônimo de entrega, doação e devotamento, numasituação em que ela abdica de sua individualidade e aspirações próprias para dedicar sua vida ao marido e à criação dos filhos. A valorização e a aceitação social da mulher passavam, portanto, pela aferição de seu papel no seio da família burguesa, constituída em bases conservadoras. Sofia optou pelo caminho contrário, afrontando todo um código imposto a gerações e gerações de mulheres. Diante de situações prefiguradas, a sua atitude se converte em transgressão a um modelo, uma escolha difícil e problemática, mas indispensável à realização enquanto sujeito e mulher.
Em sua narrativa, Sônia Coutinho adota uma postura crítica e equilibrada. Seus enredos não celebram de maneira unívoca as situações que representariam as conquistas da liberação da mulher. Suas histórias são bastante críticas em relação às indecisões, às fragilidades, ao despreparo e aos dilemas das personagens, assim como em relação ao contexto social conservador. Suas personagens movem-se numa dialética marcada pela tensão entre os condicionamentos conservadores e a busca incessante de um espaço próprio de ação, em que tentam redefinir sua identidade e seus papéis no universo social. Assim, a romancista baiana consegue, através de sua linguagem, sua temática e seus procedimentos narrativos, se colocar entre as escritoras que melhor representam a mulher na literatura brasileira contemporânea.
[1] Sônia COUTINHO. Atire em Sofia. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. Na próxima referência serão utilizadas as inicias AS, seguidas do número da página.
[2] Madonna KOLBENSCHLAG. Adeus, Bela Adormecida: A revisão do papel da mulher nos dias de hoje. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 1991, p. 258. A respeito da noção do princípio feminino, a autora comenta: “As raízes gnósticas de algumas dessas revelações místicas sugerem que a “revisão” da noção patriarcal de Deus é tão antiga quanto o próprio cristianismo. Em vez de um Deus monístico e masculino, muitos dos textos dos “ evangelhos” gnósticos — O livro secreto de João, O evangelho secreto dos hebreus, O evangelho de Tomás, O evangelho de Filipe, além de outros — descrevem Deus como um ser diádico que consiste em elementos tanto femininos como masculinos. [...] O fato de essas escrituras heréticas ou heterodoxas terem sido suprimidas nos primórdios da Igreja está relacionado à supressão eclesiástica das mulheres, mais do que uma exegese dogmática”. Cf. Op. cit., p. 258-9.
[3] William STYRON. A escolha de Sofia. 3.ed. Trad. Vera Neves Pedroso. Rio de Janeiro: Record, 1979.
[4] Sônia COUTINHO. Uma certa felicidade. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 15.
[5] Segundo Laplanche & Pontalis, “o sentimento de culpa pode designar um estado afectivo consecutivo a um acto que o indivíduo considera repreensível, e a razão invocada pode aliás ser mais ou menos apropriada (remorso de um criminoso ou auto-recriminação aparentemente absurdas), ou ainda um sentimento difuso de indignidade pessoal sem relação com um acto determinado de que o indivíduo se acuse”. Cf. LAPLANCHE, J.L. & PONTALIS, J-B. Vocabulário da Psicanálise. 10. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p. 614.
[6] Marilena CHAUÍ. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994, p. 364.
[7] Nelly Novaes Coelho comenta que, em Sônia Coutinho, “essa nova reação à problemática básica do ‘eterno feminino’ (a realização da mulher no Amor), soma-se aqui à nova linguagem narrativa que se divulga na ficção a partir dos anos 60, e que nos revela uma nova consciência da tarefa do escritor”. Cf. Nelly Novaes COELHO. À guisa de posfácio. In: Edla van STEIN (Org.). O conto da mulher brasileira. 2.ed. São Paulo: Vertente, 1978, p. 248.